130 Anos de Jornalismo

Uma linha direta com os principais fatos do mundo

O Correio do Povo superou limites e distâncias para trazer aos leitores tudo o que de mais importante acontecia para além do Brasil

Considerada até hoje uma das guerras mais sangrentas de toda a história, a Primeira Guerra Mundial foi coberta desde a Itália para o CP por um correspondente
Considerada até hoje uma das guerras mais sangrentas de toda a história, a Primeira Guerra Mundial foi coberta desde a Itália para o CP por um correspondente Foto : CP Memória

De início, a ideia de comunicar informações de regiões distantes, outros países e continentes, certamente não se apresentou de forma tranquila. Nascido no fim do século XIX, o Correio do Povo em seus primórdios podia contar apenas com a comunicação por carta, com o relato em primeira mão de pessoas que retornavam de viagens naturalmente longas e com o então revolucionário telégrafo, de serviço muito precário e inseguro, como muitas vezes o próprio jornal denunciou.

Esses limites impuseram seu preço e o CP por alguns anos trazia o mundo aos gaúchos através de memórias ou mediado por outros veículos, notadamente jornais platinos e franceses. Ainda assim, a história foi retratada em suas páginas num arco temporal que liga três séculos diferentes, refletindo todas as transformações pelas quais o planeta e suas sociedades passaram em 130 anos.

Não foram quaisquer 130 anos. O Correio do Povo inaugura sua trajetória embarcando no trem da história em um período de profundos choques culturais, filosóficos, políticos e econômicos. O mundo metamorfoseado pela Revolução Industrial e pelas dezenas de revoluções políticas do século e meio anterior apresentou novas realidades – algumas inéditas, outras que eram complexas mutações de situações precedentes.

Foi assim que sistemas (políticos, econômicos, de pensamento, comportamentais) antigos foram trazidos abaixo e novos nasceram. Junto com as ânsias políticas – marcadas sobretudo pelas agitações dos trabalhadores, mulheres e minorias nacionais ao redor do globo –, foram os grandes avanços tecnológicos que ofereceram a medida do fluxo das mudanças. O avião levantava voo na França, a medicina apresentava novidades em ritmo alucinante, o rádio surgiu trazendo o imediato para uma civilização ávida pela velocidade. O mundo girava como sempre e como nunca, e o CP retratou e refletiu sobre os fatos acontecidos ao redor do mundo inseridos nos mais variados contextos.

Parceria firmada pelo jornal com a Associated Press revolucionou o jornalismo internacional do CPCP Memória

A incursão inicial em primeira pessoa do CP no ambiente internacional aconteceu em plena Primeira Guerra Mundial. Em maio de 1915, o historiador, jornalista e romancista italiano Guglielmo Ferrero escrevia de Turim o primeiro relato de um “correspondente” do jornal, alguém que descreve e pondera sobre os eventos que vê bem defronte. Ferrero inaugurou a participação presente do CP nos principais eventos da história global e concluiu seu texto de forma profética: “A história procede com uma lógica própria, que frequentemente se afasta da dos nossos espíritos”.

Para melhor captar essa “lógica própria”, em 1921 o jornal contratou os serviços da já veterana agência de notícias Associated Press (AP). A integração dessa fonte prestigiada revolucionou o jornalismo internacional do Correio do Povo.

Tino de repórter valeu cobertura ‘in loco’ da guerra

Com a qualidade e o prestígio da agência Associated Press assegurando a credibilidade para informações tão sensíveis e difíceis de se obter, o Correio do Povo passou a dedicar a capa de suas edições exclusivamente ao noticiário internacional.

Em 1924, o jornal perfilava nova mídia em seu arsenal para a busca de informações estrangeiras:

“Acompanhando o maravilhoso desenvolvimento da radiotelefonia, que por toda parte está assumindo extraordinária importância, o ‘Correio do Povo’ encomendou, nos Estados Unidos, um dos mais aperfeiçoados aparelhos no gênero. Dotado de um poderoso ‘alto-falante’, permitirá não só receber notícias, como ouvir concertos e representações teatrais emitidos de Montevidéu, Buenos Aires e outras estações transmissoras. O aparelho encomendado não ficará somente ao serviço desta folha, mas também será posto à disposição do público.”

A inovação do rádio como fonte noticiosa determinou uma renovação no jornalismo gaúcho dedicado à cobertura internacional, cobrindo com mais agilidade não apenas outras regiões brasileiras, mas sobretudo os países vizinhos e, então, o planeta.

O fim de outro momento catastrófico da história significou uma das páginas mais marcantes do CP. Entre julho e outubro de 1946, os aliados vitoriosos se reuniram em Paris para a conferência que decidiria os termos de paz com os derrotados. Arlindo Pasqualini, diretor da Folha da Tarde (outro periódico da empresa, fundado uma década antes), acompanhou as conversações diretamente da capital francesa para o seu veículo irmão Correio do Povo.

Pasqualini foi um dos poucos jornalistas brasileiros presentes e conversou com importantes figuras políticas e diplomáticas. O jornalista escreveu em um de seus primeiros relatos: “Embora haja quem possa pensar o contrário, não é difícil vir a Paris para assistir à Conferência da Paz ou, mais exatamente, não há dificuldade em vir a Paris com a intenção de assistir à Conferência da Paz. Para isso, basta apenas animar-se a embarcar num avião, voar num dia até Natal, numa noite até Dacar, no outro dia até Casablanca ou Lisboa e, por fim, até Paris. O que não é nada fácil e mesmo quase impossível é conseguir, depois de toda essa longa viagem, um pequeno cartão azulado que abre ao seu portador os portões do Palácio de Luxemburgo”.

GUERRA FRIA

O mundo seguiu seu rumo século XX adentro, com a Guerra Fria definindo posicionamentos e a ameaça nuclear pairando sobre a humanidade. Os conflitos geopolíticos tomaram decisivamente o matiz ideológico e as guerras ganharam contornos dramáticos com o necessário alinhamento a um dos dois lados em disputa.

Combatida em um curto período de tempo, a Guerra dos Seis Dias foi acompanhada pelo CPCP Memória

A Guerra do Vietnã representava esse cosmo de intrincadas relações entre as nações e mereceu a dedicação do repórter Flávio Alcaraz Gomes, acostumado a aeroportos e idiomas estrangeiros, em nome da Rádio Guaíba e do Correio do Povo. A cobertura de Alcaraz faria história começando de maneira rocambolesca, dando completa razão ao vaticínio de Guglielmo Ferrero. Em deslocamento para o Sudeste Asiático, em maio de 1967, Alcaraz estava em Roma quando ouviu rumores sobre uma tensão particular no Oriente Médio. Os discursos e os nervos se retesavam no Egito, na Síria, na Jordânia e em Israel. O tino de repórter desviou Alcaraz de sua rota e proporcionou uma das coberturas mais gloriosas do CP. A Guerra dos Seis Dias foi combatida em um curtíssimo espaço de tempo, entre 5 e 10 de junho, mas suas consequências foram decisivas para a região e o mundo. “O primeiro sinal do conflito árabe-israelense começou a aparecer para mim no Aeroporto de Atenas. Encontrei turistas muito apreensivos a bordo do avião da TWA que tinha o Cairo por destino. A maioria invariavelmente preferia permanecer na Grécia a seguir para o Egito. Somente oito jornalistas ficaram no avião seguindo para o Cairo. Eu era um deles.”

Olhar atento possibilitou análises das mudanças

O comportamento e os costumes também refletiram a encruzilhada da história que foram os anos de 1960. O Correio do Povo estava em Paris durante o maio que marcou o mundo com o ímpeto da juventude que se fazia ouvir à força. Em 17 de maio de 1968, Flávio Alcaraz Gomes reportava:

“Em Paris, a primavera alterna-se com o inverno e angustia-se ao testemunhar uma agitação estudantil inédita na França e no mundo. Ontem à noite, percorri durante várias horas o Quartier Latin. Fiquei estupefato com o que vi. É preciso notar que morei em Paris, justamente neste bairro, durante dois anos, numa de suas épocas mais agitadas. Mas o quarteirão latino daquele tempo pode ser comparado a um internato de meninos perto da república anárquico-sindicalista que ali se instalou desde segunda-feira.”

Em maio de 1968, o CP tinha um correspondente em Paris para acompanhar de perto os protestosCP Memória

Seis anos depois do avião para o Cairo, o Correio do Povo novamente registrava in loco os eventos dramáticos de uma renovada conflagração, no mesmo cenário e através do mesmo repórter. Alcaraz Gomes escrevia e falava do Egito, de Israel e da Síria, cobrindo sempre para a capa do jornal a Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973. “Acompanhei o avanço maciço do exército de Israel rumo aos caminhos de Damasco. Saímos de Tel Aviv hoje pela madrugada. A cidade ainda dormia enrolada em seu ‘black-out’ e nós vimos o sol alçar-se do Mediterrâneo quando já andávamos perto de Haifa, viajando em um ônibus militar e escoltados por um grupo de oficiais do exército fortemente armados. O rádio transmitia o relato dos acontecimentos da véspera. As dunas e o mar nos acompanharam até Haifa, onde a comunidade árabe vive em paz com os judeus há muitos anos.”

O olhar atento do Correio do Povo ao que acontece além das fronteiras do Brasil permaneceu. O noticiário internacional deixou de estampar as capas do jornal e se espalharam para diversas páginas, acompanhando a transformação por que o mundo e o próprio veículo passou após os anos 1980. A revolução dos computadores encurtou as distâncias mais impensáveis e colocou o mundo ao alcance de um clique. Mesmo assim, acontecimentos importantes continuaram a ser acompanhados de perto pelos enviados e correspondentes.

As eleições americanas receberam especial atenção, na medida em que, com a Guerra Fria já como uma página virada da história, o poder dos Estados Unidos no concerto internacional parecia inabalável. Ao menos até surgir um rival à altura no gigante chinês, também visitado pelos jornalistas do CP para relatar e ver de perto o novo candidato à hegemonia global.

Do universo de comunicações precárias e incipientes, movidas a vapor e escritas unicamente em papel, ao atual, em que as diversas redes de informação eletrônica varrem o planeta a cada segundo, o Correio do Povo registrou o andar cada vez mais acelerado dos tempos, olhando para todas as latitudes e longitudes.