130 Anos de Jornalismo

Resistência: Correio do Povo teve superação durante as duas enchentes

Episódios de 1941 e 2024, em Porto Alegre, marcaram a história do jornal, que teve suas sedes e gráficas alagadas

Em maio de 2024, a atual sede foi invadida pelas águas e ficou inacessível por duas semanas
Em maio de 2024, a atual sede foi invadida pelas águas e ficou inacessível por duas semanas Foto : Fabiano do Amaral

Exatamente nas duas enchentes históricas que atingiram Porto Alegre, em 1941 e 2024, o Correio do Povo viu-se narrador e atingido pelas águas. Porém, mesmo com os desafios impostos pelo avanço do rio pelas sedes e gráficas, o jornal manteve, de formas distintas das épocas, o desafio de conseguir produzir e levar o seu produto máximo: a informação, aos seus leitores e à sociedade.

Os momentos trazem similaridades. Nas duas vezes, foi a chuva excessiva na cabeceira dos rios que deságuam no Guaíba que fez com que as ruas da capital fossem invadidas.

Se, naquele dia 3 de maio de 1941, o jornal trazia uma reportagem sobre a inundação que ameaçava o centro de Porto Alegre, na mesma data no ano de 2024, a capa do Correio do Povo retratava o ‘dilúvio’ que era esperado, noticiando as cidades do interior que sofriam com a enchente, mas também a previsão não tão otimista do que viria a ser os dias seguintes.

Nas cheias de 1941, águas impediam a entrada no jornalCP Memória

Foi no dia 4 de maio de 1941 que a água superou todas as barreiras, inclusive algumas construídas pelos próprios funcionários do jornal, e alagou a então sede, que ficava na Rua da Praia, um pouco distante da atual, e o depósito de papel, na rua Sete de Setembro. Curiosamente, 83 anos depois, outra geração de jornalistas viu o que até então era apenas um fato histórico de superação. Afinal, em 1941, o jornal não circulou durante seis dias. As páginas foram pensadas e preparadas, mas existiram apenas na memória dos jornalistas à época. Porém, no retorno, em 12 de maio, houve uma cobertura completa de todos os acontecimentos dos dias anteriores.

Oito décadas depois, o mesmo cenário se formava. Na noite de 3 de maio de 2024, o prédio Hudson precisou ser evacuado após um dia inteiro marcado pela tensão com o avanço acelerado das águas e pela cobertura intensa dos acontecimentos, que já vinham provocando estragos. Um pequeno grupo ficou no prédio até por volta das 21h para finalizar a edição do dia seguinte, que não chegaria a rodar, uma vez que a gráfica, que ficava no Quarto Distrito, já estava tomada pelas águas. Contudo, ela foi produzida e disponibilizada digitalmente e estampa uma das capas mais emblemáticas já feitas pelo CP, que é a cena do Mercado Público e Paço Municipal alagados.

Mas naquele dia também havia um outro elemento presente: a incerteza sobre o avanço das águas. E não demorou para a resposta se revelar. Na madrugada de 4 de maio, a enchente tomou conta do prédio de forma devastadora. A água atingiu cerca de um metro e meio de altura, deixando o edifício e a redação isolados. Espaço esse que só voltaria a ser ocupado três semanas depois.

Neste período, foram 16 edições disponibilizadas no formato digital, produzidas com os profissionais em suas casas ou em locais seguros, visto que muitos também tiveram a sua vida pessoal atingida. E isso só foi possível pela dedicação de cada um que, mesmo em condições adversas, buscou formas de exercer o seu compromisso. Após duas semanas, em um espaço improvisado e em uma gráfica de terceiros, o jornal voltou a circular em 20 de maio. O retorno da edição impressa representou superação e vitória. Ao prédio Hudson, a retomada ainda demoraria mais uma semana, mas a volta surgiu como uma marca da resistência.

Essa é, na verdade, uma parte da versão dos desafios enfrentados naquele período. Isso porque, ao contrário de 1941, dessa vez havia a possibilidade de as informações apuradas serem compartilhadas em tempo real pelo site e pelas redes sociais. Assim, a atuação dos jornalistas foi ainda mais relevante para que milhares de pessoas pudessem ter acesso a informações com credibilidade e que poderiam efetivamente salvar vidas.

A cobertura marcou de formas diferentes cada um dos jornalistas, mas também a história do Correio do Povo. As imagens do prédio alagado e a superação dos profissionais, que, mesmo sem sede, continuaram atuando, obtiveram visibilidade nacional. Mas também representaram a importância do jornalismo nos momentos de crise. Uma das bases da fundação do Correio do Povo.