Você já deve ter ouvido a palavra “renascimento” de ou sobre alguém que passou por uma crise daquelas de que a gente não sai do mesmo jeito que entrou. Pode parecer exagero, mas não é: as grandes transições de vida são capazes de nos colocar em pontos de recomeço, tanto para situações e comportamentos quanto para partes de nossa própria identidade.
E é justamente por tratar de “partes” que não considero “renascer” o verbo mais apropriado para o que vem depois de uma transição – pelo menos não quando estamos na maturidade.
“Renascer”, no sentido literal, significa “nascer novamente” – o que é muito poderoso em termos simbólicos. Só que, quando nascemos, chegamos ao mundo desamparadas, precisando de cuidados e da ajuda de outras pessoas para sobreviver. Da mesma forma, não temos quase nenhuma experiência e nem o aprendizado decorrente delas. Essa “bagagem emocional” leva anos para ser construída.
Então, quando passamos por uma transição de vida na maturidade, temos uma enorme vantagem em relação ao recém-nascido: podemos nos apresentar ao mundo em uma versão atualizada, mas mais independente e esperta – e ainda preservando as partes de nós que seguem interessantes.
A gente já conhece os paranauês da vida adulta e pode colocar essa sabedoria em prática de imediato, economizando tempo e energia. Por isso considero “reestrear” uma palavra mais adequada ao pós-transição – como uma atriz que já interpretou vários papéis ao longo da carreira e consegue criar um novo personagem com mais facilidade.
E já que estamos falando em palavras, quero fazer uma distinção importante: crise e transição não são sinônimos. Pode-se dizer que a crise é o estopim e a transição é o processo que leva alguém a reestrear. Enquanto a crise, sendo indesejada, pode nos colocar em uma posição de passividade, a transição demanda ação. E para enfrentá-la, não basta o acúmulo de conhecimento proporcionado pela experiência – é preciso trabalho interno para transformá-lo em sabedoria aplicável à vida.
Você deve conhecer pessoas que passaram por transições difíceis e, ao sair delas, continuaram exatamente do jeito que eram antes. Passam por situações como uma doença, uma separação, um luto, um ninho vazio, uma grande mudança pessoal ou profissional, e seguem repetindo os mesmos padrões. Nada de errado com isso, já que tudo o que queremos em uma fase complicada é escapar dela, mas aproveitar o cataclisma para ganhar novas ferramentas de enfrentamento é investimento para o futuro.
A maturidade, por todas as possibilidades que mencionei, é uma etapa propícia às grandes transições. Por isso, utilizar as experiências passadas para melhor equipar nossa caixa de ferramentas é a melhor estratégia. Ainda temos metade da vida pela frente – e isso é tempo demais para deixar de reestrear muitas vezes.
Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há dez anos e tem dois livros sobre o tema.